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Professor Bellei

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Professor Bellei

A direita limpinha, à maneira de Flávio Morgenstern, aquela que gosta de posar diante de estantes de livros como quem exibe um diploma de grandeza intelectual, a direita que herdou de Olavo de Carvalho apenas a estética de biblioteca e o gesto teatral do sábio, mas não a sabedoria nem o discernimento, resolveu, no apagar das luzes do segundo tempo, proclamar que não existe terceira via e que Flávio Bolsonaro é a única salvação possível. Por quê? Porque levaram pancada até o osso. A surra foi tão generosa que alcançou até o santinho de pau oco, o jovem Nikolas, e a outrora elegantíssima Michele, agora desmascarada como a Madrasta Má de um conto de fadas de mau gosto. Depois de serem humilhados pela opinião pública, essa que, com frequência, se faz passar pela voz de Deus, e de sentirem, no fundo do bolso, o peso da própria inépcia, mudam subitamente de discurso. Ótimo! Antes tarde do que nunca. Sejam bem-vindos, patetas da direita caviar. Mas que fique lavrado em ata, com tinta indelével: não foi por convicção, nem por tardia honestidade intelectual, que fizeram a meia-volta ou a mea-culpa. Convictos, vocês nunca foram. Intelectualmente honestos?, hmmm, surgem dúvidas. O que os moveu foi o cheiro inconfundível da derrota e o desconforto burguês de ver o próprio capital político derreter como gelo ao sol tropical. Nada mais previsível. Nada menos edificante. #Direita #Política #Brasil

Thomas Hobbes foi arrancado de seu sono eterno para assistir, com o desdém que lhe era próprio, a um debate moral que agita as entranhas da sociedade brasileira. O governo dos Estados Unidos, com a força que lhe é habitual, classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A notícia caiu como bomba: perplexidade, indignação contida, aquele silêncio constrangido de quem vê o espelho devolver uma imagem incômoda. O governo brasileiro, fiel à sua tradição de refugiar-se em fórmulas jurídicas quando a realidade aperta, já havia recusado a mesma classificação. Argumentava, com solenidade, que o “terrorismo” exige motivação política, ideológica ou religiosa, enquanto o narcotráfico obedece apenas à lógica do lucro. Distinção elegante, sem dúvida. Mas que, lida com olhos hobbesianos, revela-se de uma fragilidade quase obscena. Porque Hobbes, o velho inglês, morto em 1679, não admitia meias-palavras nem sofismas de chancelaria. Para ele, o Estado, a quem chamou de Leviatã, tem uma única razão moral de existir: arrancar o homem da guerra de todos contra todos, do estado de natureza onde a vida é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”, para a vida “civilizada”. Para isso, o soberano, o Estado, deve ser o mais forte, sem rival. A soberania não é retórica: é monopólio absoluto da força legítima. Qualquer poder que desafie esse monopólio é, por definição, inimigo do corpo político. Diante da ginástica semântica de Brasília, tipo: “são criminosos, não terroristas”, Hobbes veria não uma prudência jurídica, mas uma rendição disfarçada. Criminosos são toleráveis? Não para Hobbes, mas é indisfarçável que, em alguma medida, o Leviatã Tupiniquim tolera os exércitos paralelos que controlam territórios, cobram “impostos” com fuzil na mão, ditam leis nos morros e nas periferias, mantêm arsenais de guerra e executam súditos com a frieza de quem exerce jurisdição. Ora, se o Estado aceita essa partilha de soberania, se se contenta com distinções de gabinete enquanto o Leviatã sangra, então o Contrato Social está rompido. O soberano perdeu a legitimidade. Nada menos que isso. Hoje, sexta-feira, talvez Hobbes já tenha voltado a dormir o sono dos justos. Mas o recado ficou, cortante como lâmina: PCC e CV não são meras quadrilhas. São mini-Estados em guerra contra o Leviatã. Possuem território, força militar, capacidade tributária e autoridade de vida e morte. O Estado que se encolhe diante deles, que prefere o conforto da semântica à violência necessária da soberania, segundo Hobbes, já não governa: sobrevive. E sobrevivência não é governo. É claro que não faltará o gaiato de plantão para murmurar que “na teoria é bonito, mas na prática...etc”. Na prática, convenhamos, o que mais pesa é o medo, o velho, o bom e conhecido medo brasileiro. Medo de uma intervenção americana, medo de perder o controle da narrativa, medo de admitir que o Estado, em vastas regiões do país, deixou de ser o mais forte. Para o diabo o conceito de terror. É o medo, como sempre, quem dita o discurso oficial. E Hobbes, do fundo de sua ironia eterna, talvez sorria com amargura: “Eis o Leviatã que se fez de conta”. #Hobbes #Brasil #Terrorismo

Flávio Bolsonaro desceu em Brasília vindo de uma viagem aos Estados Unidos que se coroou de êxito retumbante, e foi recebido por uma multidão que enchia o aeroporto como se a cidade, subitamente, tivesse recobrado o pulso e a memória. Vê-lo assim, cercado de fãs antigos, de admiradores recentes e de eleitores de última hora, é como assistir ao reaparecimento de uma chama antiga. Aquela mesma chama que, em 2017, envolvia o pai, Jair Messias, com o fervor quase religioso dos que ainda ousavam ter esperança num país entregue à mediocridade e ao cinismo. Para os que duvidam dele, para os que torcem contra, com o esgar superior de quem espera sempre “outro candidato dos sonhos”, o recado é brutal e inequívoco: o bolsonarismo voltou. Nunca havia desaparecido, é certo; dormitava, ferido, mas vivo, nas entranhas do país. Agora, porém, reassumiu a forma que sempre aterrorizou o sistema: a da rua tomada, da motociata rugindo, da multidão que enche a Avenida Paulista, Copacabana ou o Eixo Monumental. Dois fenômenos o reacendem: o encanto pessoal de Flávio, que seduz onde o pai por vezes intimidava, e a lenta e inexorável substituição do medo pela esperança. Aos que ainda acalentavam a ilusão da terceira via, só resta o gosto amargo de engolir a própria presunção. Essa miragem só funciona, com efeito, na cabeça daqueles que perderam todo contato com a realidade brasileira. Uma realidade que não se deixa enganar por fórmulas de gabinete nem por candidatos fabricados em laboratórios de marketing de grandes canais do Youtube. O grito que ecoa agora é direto, áspero, inconfundível: Flávio Bolsonaro. E o sistema, que fingia tê-lo sepultado, sente novamente o chão tremer sob os pés. O bolsonarismo voltou. #Bolsonarismo #Brasil #Política

Vivemos no reino da mentira, e não é de hoje. Santo Agostinho de Hipona, com lucidez implacável, ergueu contra ela dois monumentos: De Mendacio e Contra Mendacio. Para ele, mentir não era mero equívoco da língua, nem simples discordância entre palavra e fato. Era, antes, algo mais grave e mais íntimo: a duplicidade da mente. Duplicidade da mente. A expressão merece ser detida. Ela denuncia uma fratura na alma. O mentiroso não se engana sobre o real; ele simplesmente deixa de se importar com ele. A decisão de falsear precede o acontecimento. O fato exterior torna-se irrelevante, mero pretexto para a operação da vontade enganadora. Tomemos um exemplo recente, quase didático. Flávio anunciou viagem aos Estados Unidos para encontrar-se com Trump. Alguém, antes mesmo que o avião descolasse, já decretava: “Não irá. Não foi convidado.” Depois, quando as fotos surgiram, o aperto de mão, o diálogo, os sorrisos, a mesma voz, imperturbável, declarou que nada daquilo existira. Que a imagem era criação de inteligência artificial. Evidências, testemunhas, sequência temporal, tudo se dissolveu diante da vontade de falsificar. O que move tal criatura? Santo Agostinho responde com precisão cirúrgica: voluntas fallendi, a vontade expressa de enganar. O mentiroso sabe a verdade e a guarda para si como um tesouro envenenado. Ao mundo, oferece o simulacro. Usa a linguagem não para revelar, mas para trair a própria natureza da fala. E, ao fazê-lo, fratura-se. Divide-se contra si mesmo. Repito: divide-se contra si mesmo. Torna-se, no sentido mais profundo, um ser desorientado, porque já não habita o mesmo universo que os seus olhos veem e as suas mãos tocam. Aqui reside o caráter espiritual da mentira. Não é mero erro cognitivo; é uma porta aberta ao mal. O homem que mente sistematicamente, corrompe o centro de si próprio. Pensa uma coisa e profere outra. Vive, portanto, em estado de guerra civil interior. Mas o pior não é isso. O pior é quando tais almas fraturadas conquistam os meios de comunicação, quando dominam as redes, os jornais e as telas. É quando o reino da mentira deixa de ser metáfora para se tornar regime. É o regime em que habitamos. Um tempo em que a realidade é diariamente submetida ao veredito da duplicidade. Um tempo agostiniano, sim, mas sem a graça que Agostinho, afinal, invocava para curar a fratura. Resta-nos apenas, como ele próprio nos ensinou, nomear o mal pelo seu nome. E resistir. #Mentira #Verdade #Comunicação

Paulo Figueiredo atuando como Porta-voz da futura Presidência ou Ministro das Comunicações. Taí um cargo que lhe cairia como uma luva. Excelente estreia. Grande dia. #Brasil #Política #Comunicações

Infelizmente, a ascensão de um herói popular, seguida pela usurpação meticulosa de sua fama e de seu legado por uma figura mais jovem, constitui um dos motores mais antigos das dinâmicas de poder e da psicologia das massas. Embora não exista uma “teoria do roubo de fama”, três pensadores, em particular, desvendaram as engrenagens desse processo: René Girard, Hegel e Pierre Bourdieu. Bourdieu, que desenvolveu o conceito de capital simbólico, observa que todo espaço, seja ele político, midiático ou artístico, é um campo de batalha onde se disputam prestígio, fama e honra. Para ele, o herói mais velho detém a “ortodoxia”: foi ele quem estabeleceu as regras do que significa ser admirado. A figura mais nova, porém, surge como “heterodoxia” e, para vencer o oponente, dispõe de duas opções estratégicas: o parricídio simbólico, através do qual destrói a reputação do herói mais velho, ou a apropriação, declarando-se o “verdadeiro herdeiro” do legado, esvaziando a figura original de sua autoridade enquanto rouba sua base de admiradores. A segunda opção estratégica visa a transferência da fama como uma herança, muitas vezes forçada. A filosofia de Bourdieu mostra, no fim das contas, que a fama e o heroísmo não são propriedades privadas; são projeções da massa. A figura mais nova não rouba exatamente a fama do herói original, mas sequestra o imaginário popular, percebendo que a massa está pronta para transferir sua adoração a um receptáculo mais jovem, mais adaptado ao momento ou mais enérgico. Um grande facilitador dessa transferência é a imagem do primeiro herói aprisionado na torre do castelo. Aprisionado e amordaçado. Bourdieu não fala sobre isso, mas o fenômeno encaixa-se com perfeição na realidade que vivemos. Temos, e é inegável, o herói original amordaçado, escondido de seu povo, ao mesmo tempo em surge a tentativa de construir um novo mito no imaginário popular. Ao leitor mais atento de Bourdieu, parecerá que nunca houve uma orquestração tão ilustrativa quanto o caso brasileiro. Chega a parecer que a filosofia sociológica de Pierre Bourdieu nasceu de um estudo de nossa realidade política ou foi feita sob medida para ela. Coincidência ou ironia da História, o mecanismo não se aplica com exatidão cirúrgica: o sucesso do novo mito depende, em última instância, do grau de disponibilidade da massa para transferir sua admiração ou seu amor. Resta ao pretendente arriscar. Resta-lhe medir até onde pode esticar a corda da impostura, até onde deve fingir-se mito ou fabricar-se como “novo mito”. É tática arriscada, sem dúvida; mas, como o novo ídolo não tem pressa e o tempo joga a seu favor, o risco, por ora, não lhe tira o sono. É o que se deduz, com melancólica clareza da nossa realidade política: o menino vestiu-se de mito e está imbuído de salvar o nosso destino. Ele próprio deve acreditar nisso. É o que se deduz, repito, com melancólica clareza. #Fama #Heroísmo #Poder

A Consciência Histórica e o Esquecimento Deliberado Como ter consciência histórica desprezando a própria história? A pergunta, ainda que pareça carregar em si uma contradição íntima, impõe-se com a lucidez cruel de quem observa o presente e nele descobre o cadáver ainda quente do passado recente. A dificuldade real não estaria em conservar o que se passou há duzentos anos, tempo que a pátria, em seus surtos de amnésia seletiva, já aprendeu a transformar em lenda ou em nada. O drama, aqui, é outro: lutamos, ou fingimos lutar, para manter vivo o que se desenrolou ontem, quase anteontem. Um homem de conduta ilibada, avesso aos poderosos, marginal ao sistema que o repelia, chega, por milagre ou por acidente da História, ao poder supremo. Não se passaram oito anos e já uma multidão apressada deseja declará-lo morto, sepultá-lo em vida, simplesmente porque o incomunicável permanece incomunicável. Num país minimamente afeito à cultura, habituado à preservação do que tem densidade, um personagem de tal quilate seria matéria diária de reflexão. Justamente por estar silenciado, sua figura se imporia como enigma e lição: legado a ser interrogado, não mumificado. Seria pedir demasiado? Seria utópico? Não, se tivéssemos olhos para o que se passa alhures. Na África do Sul, a aura de Nelson Mandela resistiu intacta a quase vinte e sete anos de prisão. Não se discute aqui a sua ideologia. Discute-se a lealdade de um povo à própria memória. A estranha coincidência, que já nem surpreende, é que só os “heróis” da esquerda parecem merecer tal conservação devota. Pepe Mujica, por exemplo, passou treze anos encarcerado e nem um único dia a sua “memória revolucionária” foi deixada ao desamparo: regada, cultivada, transformada em hagiografia permanente. A direita, ao contrário, revela-se singularmente hábil em sepultar o seu herói de anteontem, na ilusão pueril de que hoje mesmo gestará o salvador de amanhã. Aqui reside a diferença gritante. A esquerda não se atormenta com a urgência de substitutos; aceita que os seus líderes envelheçam, quase centenários, sem que o mito se desgaste, vide Fidel e Lula. A direita, por sua vez, é pródiga em novos messias: quantos não tentaram, nos últimos quatro anos, suplantar o herói de 2018? Essa febre de substituição revela o que realmente nos falta: memória. Matamos a memória a intervalos regulares, como quem cumpre um ritual bárbaro. Rompemos a corda que nos liga ao passado e seguimos, cambaleantes como bêbados, esbarrando nos muros que nós mesmos erguemos no escuro. O herói incomunicável disse, com clareza cortante, o que deveríamos fazer e em quem votar. Disse: votem em Flávio! Ponto! Nada mais idiota, nada mais suicida, do que desrespeitá-lo agora, fingindo esquecer quem ele foi e é e o que representou e representa. Recuperar a memória não é gesto de nostalgia: é condição de sobrevivência. Ou ouvimos o herói de ontem, ou não teremos amanhã. O resto é ruído, ilusão e a velha, a eterna, a brasileira arte de enterrar vivos os nossos melhores. #História #Memória #Identidade