A vertente conceptual do meu arquivo fotográfico estrutura-se em três categorias: séries, ensaios, projectos. As séries são os conjuntos mais abrangentes, a partir dos quais podem nascer ensaios e projectos. O meu mais recente livro, "Ainda Há Luz nas Janelas", que será apresentado no próximo dia 5 de Novembro, nasce precisamente de uma série intitulada "Retrato de Portugal — Quantos Retratos São Precisos para Fazer um Retrato?". A imagem que aqui apresento integra outra série, a que chamo "Fotopinturas". O título é deliberadamente mordaz e remete para uma questão antiga: a tendência para avaliar a fotografia segundo critérios que pertencem à pintura. Em 1859, Charles Baudelaire, no seu texto "O Público Moderno e a Fotografia", criticou a crescente valorização da fotografia enquanto instrumento de reprodução fiel da realidade, defendendo a autonomia da criação artística e a distinção entre as diferentes linguagens. Não se trata de lhe atribuir a expressão «fotopinturas», mas de reconhecer na sua crítica uma questão que permanece actual. Passou mais de um século e meio e, apesar de toda a evolução técnica e conceptual da fotografia, continuamos a cometer o mesmo erro: julgar uma imagem fotográfica pela sua aproximação à pintura, como se a fotografia precisasse de imitar outra linguagem para justificar a sua existência. A fotografia tem os seus próprios referentes, a sua própria história e as suas próprias possibilidades expressivas. Quando a avaliamos exclusivamente à luz de critérios alheios à sua natureza, não estamos a aprofundar a compreensão da fotografia. Estamos apenas a limitar aquilo que somos capazes de reconhecer nela.. #RuiCamposFotografia #Fotopinturas #Fotografia #LinguagemFotográfica #PensamentoFotográfico #EstéticaFotográfica #HistóriaDaFotografia #CharlesBaudelaire #FotografiaContemporânea #FotografiaDeAutor #ImagemFotográfica #TeoriaDaFotografia #FotografiaComoLinguagem #ArteEFotografia
