Circula pelas veredas digitais do X um vídeo em que uma voz masculina, supostamente confidenciada, assegura que Michelle Bolsonaro revelara ao mundo a inépcia oscular de Jair. O marido, segundo o “relato’”, não sabia beijar. Eis a intimidade conjugal servida como petisco nas redes, arma vil da guerra de narrativas que devora reputações com a voracidade de um vírus. Embora o artefato apresente todos os estigmas do deepfake, a premissa não é nova. Usar o leito, o beijo ou a alcova para demolir a estátua de um governante é tática tão antiga quanto o poder. A exposição das fraquezas sexuais, físicas ou emocionais de chefes de Estado pelas próprias consortes já derrubou tronos, abalou repúblicas e forneceu material inesgotável à crônica da miséria humana. Dois casos próximos, no tempo histórico, ilustram com precisão essa arte da desconstrução. Na década de 1970, Margaret Trudeau, casada com Pierre Trudeau, o primeiro-ministro canadense de charme intelectual e pai de Justin (porque dizem maldosamente que pai é quem cria), dissolveu o casamento e publicou Beyond Reason em 1979. Na obra, escancarou a frieza glacial do marido, a distância afetiva que transformava o palácio em deserto, os próprios adultérios e a insatisfação profunda de quem tentara salvar as aparências no epicentro do poder. Era a vingança da mulher reduzida a acessório. Mais retumbante ainda foi o terremoto provocado por Diana, Princesa de Gales, contra Charles. Nos anos 1990, a realeza britânica estremeceu quando ela colaborou com o biógrafo Andrew Morton e, depois, concedeu à BBC a entrevista que entrou para a história. “Éramos três neste casamento”, disse, com voz de mártir ferida, vazando o adultério com Camilla, a frieza física do príncipe e a ausência total de desejo no leito real. Para um futuro rei, ver sua performance afetiva dissecada em rede global foi humilhação sem par na era moderna: o herdeiro da coroa, exposto como homem incompleto pela esposa que o mundo tanto amara. Agora, o que circula nas redes, atribuído por muitos à indiscrição de Sóstenes Cavalcante, pinta Bolsonaro quase como um adolescente virgem tardio, alheio às delícias da sensualidade porque, ao que parece, dedicou a vida ao trabalho e à militância para salvar o Brasil. O relato depõe contra o homem público, sim; mas depõe, sobretudo, contra a mulher que deveria guardar tais confidências como relíquia sagrada. Custa, no entanto, crer que Sóstenes tivesse tamanha indelicadeza de vazar o que lhe fora confiado; custa ainda mais imaginar Michelle descendo a esse nível de baixeza conjugal. O mais provável, convenhamos, é que se trate de falsificação digital. Seja como for, a questão eleva-se acima da fofoca de alcova. Michelle deve processar com rigor quem espalhou o deepfake, defendendo a própria honra e a do marido. Mas, se não for falsificação, que venha a público e explique por que processa Sóstenes Cavalcante, ou seja lá quem for o “delator”. Trata-se, afinal, de uma derradeira questão de honra. Numa época em que tudo se reduz a espetáculo vulgar, restam ainda, para os que se pretendem estadistas, esses últimos bastiões da dignidade. Ou o que sobra dela. #deepfake #política #honra




