E lá vamos nós para mais um dia de tratamento rumo à cura do câncer de mama. Já se foram sete. Faltam cinco desse primeiro ciclo. E hoje eu consigo dizer que estabilizei muita coisa dentro de mim. Os medos, os receios, a insegurança com o diagnóstico, com a quimioterapia, com tudo o que eu imaginava que seria esse processo. Quero falar disso principalmente para quem está passando por isso, para quem ainda vai passar e também para quem acompanha alguém da família. Uma vez me disseram que perder o cabelo seria o de menos. Eu não acreditei muito, não. Sofri demais antes de perder meu cabelo. Mas aí ele caiu e, incrível, realmente virou o de menos. É ruim? É. Porque eu não escolhi ficar careca. Mas não tenho vergonha nenhuma da minha careca. Ando por aí exibindo quando quero. Às vezes cubro, às vezes não. Hoje está frio, então resolvi preservar a coitada um pouco. Mas ela está aqui. A quimioterapia, que acontece todas as segundas-feiras, também entrou na minha rotina. Virou uma parte da minha vida, não a minha vida inteira. Já não chego aqui abalada como antes. As reações diminuíram bastante. Ficou essa coceirinha chata, que agora vou investigar com o alergista. Estou forte, minha imunidade está boa e tenho engordado bastante. Fazer o quê? Neste momento, prefiro engordar, me alimentar direito e conseguir chegar até o fim sem precisar pular nenhuma sessão do que ficar fraca. E volto a falar da alimentação porque, para mim, ela tem feito uma diferença enorme durante o tratamento. Todo dia tem chia. Ela tem fibras, ômega 3, minerais e virou parte da minha rotina. É quase o meu “Danoninho vale por um bifinho” versão quimioterapia. Mas acho que a mensagem de hoje é outra. É menos ruim do que aparenta. Não é legal. Ninguém quer receber um diagnóstico de câncer. Ninguém quer fazer quimioterapia. É um saco fazer quimioterapia. É um saco ter câncer de mama. Não vou romantizar porque não existe nada de bonito nisso. Mas também não é impossível. Quando você começa a atravessar o processo, percebe justamente isso: é um processo. E processos passam. Agora eu já consigo olhar para trás e perceber que está passando rápido. Falta pouco. Não tenho mais aquela ansiedade gigantesca do começo. Continuo trabalhando. Não quero parar de trabalhar e não vou parar de trabalhar. Faço minhas coisas dentro de casa, sigo minha rotina. E isso é muito importante para a cabeça da gente. A doença e o tratamento não podem definir quem você é. Você precisa continuar sendo você durante o tratamento do câncer de mama. O câncer não pode ocupar todos os espaços da sua existência. E não tem nada a ver com essa história de “guerreira”, de “você é forte”, de transformar quem tem câncer numa espécie de heroína obrigada a sorrir diante de tudo. Não. Tem a ver com entender que a vida é cheia de obstáculos. A gente passa por coisas psicológicas, psiquiátricas, físicas, familiares, amorosas. A vida de ninguém é uma linha reta de felicidade absoluta. Muito pelo contrário. Tem coisa que simplesmente é uma merda. A gente sente, sofre, reclama, fica com medo, fica de saco cheio. E continua. Hoje, inclusive, estou fazendo quimioterapia no que denominei de quartinho premium presidencial: cama, banheiro e uma bela vista nublada de São Paulo. Eu acho São Paulo bonita vista daqui de cima. Apesar de que o avanço predatório do mercado imobiliário está produzindo uma situação meio bizarra: um prédio vai tampando a vista do outro até chegar o momento em que, para ver São Paulo, aparentemente será necessário morar no último prédio construído. Mas hoje dei sorte. Caminha, banheiro, janela, vista de São Paulo, quimioterapia terminando e daqui a pouco estou indo embora. Sete foram. Faltam cinco. Bora lá. Agora falta pouco. #CancroDeMama #Quimioterapia #ForçaECoragem


