Hoje é dia da minha quarta sessão de quimioterapia, rumo à cura. Mas os dias do fim de semana não foram tão bons. No sábado, eu levantei, cuidei do meu cabelo como sempre cuidei, lavei, hidratei, e minha filha resolveu registrá-lo ainda aqui. Porque o dia que eu mais temia, mesmo sabendo que ele chegaria, chegou: meu cabelo começou a cair. E eu estou tentando elaborar tudo isso. Eu sabia que cairia, mas não é fácil passar por esse momento. Toda mulher carrega no cabelo uma parte da sua autoestima, da sua identidade e da sua história. Eu sei que ele vai crescer, mas é muito difícil perdê-lo e saber que vai demorar para voltar. Todo mundo tem uma história com o próprio cabelo. Eu tenho a minha. Não se trata apenas de perder o meu cabelo, mas, ainda que temporariamente, uma parte de quem eu sou. Eu me casei aos 15 anos e passei mais de 20 anos sobrevivendo, sem poder viver a minha vida, sem liberdade para ser quem eu realmente era. Quando falam que são “só” cinco meses de tratamento, e que agora já faltam quatro, pode parecer pouco. Mas é muito tempo para mim. Como na música do Belchior, eu tenho muita pressa de viver. Sempre tive. Quando me separei, passei a ter ainda mais pressa. Para mim, cada minuto, cada dia e cada mês importam muito. A minha vida, de verdade, começou há poucos anos. Eu me casei novamente, mas hoje tenho um companheiro que compreende e respeita a minha liberdade. Eu sou livre ao lado dele. Posso ser quem sou, porque ele entende que um relacionamento não deve ser uma prisão, mas um espaço de liberdade. Por isso, perder cinco meses dessa vida que começou há tão pouco tempo parece muita coisa. Eu continuo achando tudo isso muito injusto. O meu cabelo também faz parte da minha história. Passei muitos anos sendo levada a acreditar que a cor e o formato dele estavam errados, que eu deveria descolori-lo e transformá-lo. Foram anos descolorindo, agredindo e praticamente matando o meu cabelo. Até que, há alguns anos, descobri que quem estava errada era eu por acreditar que precisava ser diferente. Percebi que deveria simplesmente ser quem eu sou. Sou uma mulher latino-americana, de cabelos pretos, ondulados e já grisalhos. Resolvi deixar os meus cabelos livres, assim como eu. E foi lindo me reconhecer e aceitar o meu cabelo. Eu estava vivendo o melhor momento da minha relação comigo mesma. Livre das imposições da ditadura da beleza, aceitando o meu corpo com suas imperfeições, o corpo de uma mãe, com estrias, flacidez e marcas de vida. Aceitando o meu cabelo natural e grisalho. Essa é a mulher que sou hoje. Então veio o câncer e, de alguma forma, veio tirar isso de mim. Eu sei que será apenas por um período, mas é um período que custa muito. Toda mulher que passa por isso entende. Cada uma elabora esse momento de uma maneira. Eu decidi encarar que passaria por isso. Existia a possibilidade da touca de resfriamento, mas ela também seria pesada, dolorosa e custosa, além de não oferecer garantia por causa do tipo de quimioterapia que estou fazendo. Não é um processo fácil. É muito difícil. Eu sou forte e tenho sido forte até aqui, mas essa parte é pesada. Hoje, eu me permito ser fraca. Eu me permito sentir, sofrer e não estar bem. Eu sei que isso vai passar. Sei que, lá na frente, vou olhar para tudo o que vivi e terei a certeza de que venci. Dias melhores virão. Quero agradecer a todas as pessoas que me enviam amor, carinho e orações. Senti que precisava falar sobre isso, não apenas por mim, mas também por todas as mulheres que estão enfrentando, que já enfrentaram ou que ainda enfrentarão esse processo. É difícil perder o cabelo. Não deixem ninguém minimizar essa dor. Dói. É injusto. Nós não queremos passar por isso. Saber que o cabelo vai crescer não ameniza a dor de perdê-lo agora. Mas nós somos fortes. Toda mulher é forte, até nos dias em que não consegue se sentir assim. E seguimos. Eu continuo seguindo, um dia de cada vez. Hoje é apenas um dia ruim. Outros, muito melhores, virão. #Quimioterapia #Autoaceitação #ForçaFeminina





