Será que o desempenho da seleção na Copa afeta a avaliação do governo? Fui atrás do que a ciência política tem sobre isso e o resultado é curioso. O estudo mais famoso é de Healy, Malhotra e Mo, publicado na PNAS em 2010. Eles analisaram eleições americanas de 1964 a 2008 cruzadas com resultados de futebol universitário, um evento que o governo obviamente não controla. Uma vitória do time local nos 10 dias antes da eleição aumentou o voto no incumbente em 1,6 ponto percentual, chegando a 2,4 pontos nas regiões de torcida mais fanática. E o desenho é sofisticado: usaram as casas de apostas para isolar o componente surpresa do resultado. É justamente a vitória inesperada que move o eleitor. O achado incomoda porque revela algo sobre nós: o eleitor não julga o governo por uma planilha, julga pelo próprio estado de ânimo. Ele recompensa e pune o incumbente por variações no seu bem-estar que não têm nada a ver com governo. É um instinto empírico primário: estou me sentindo bem, logo as coisas vão bem, logo quem está no comando merece ficar. E não é achado isolado. Um estudo no Journal of Finance analisou 39 países e mostrou que a eliminação da seleção nacional em Copa derruba a bolsa local no dia seguinte, e a derrota pesa mais do que a vitória alivia. Na Espanha, pesquisadores descobriram que nas províncias premiadas pela loteria de Natal o incumbente ganha mais votos na eleição seguinte, mérito zero do governo, humor puro. E nos Estados Unidos, derrotas inesperadas de times da NFL aumentam os registros de violência doméstica nas horas após o jogo. O estado de ânimo coletivo transborda para a economia, para o voto e até para dentro de casa. Mas há dois limites importantes. Primeiro, o efeito é curtíssimo, dias, não meses. Segundo, e mais interessante: quando os pesquisadores lembravam a pessoa da origem do seu humor ("seu time ganhou ontem, não é?"), o efeito desaparecia. Consciência dissolve o viés. E no Brasil? Os dados não confirmam o mito. Levantamento do UBS comparou a aprovação do governo antes e depois de cada Copa: em 2002, ano de penta, caiu 2%. Em 1998, derrota na final, subiu 7%. FHC se reelegeu em primeiro turno semanas depois do 3x0 para a França. Lula se reelegeu em 2006, ano de eliminação. Agora, uma provocação para reflexão, sem conclusão pronta. O movimento conservador brasileiro de hoje é essencialmente um movimento de revolta contra o sistema, animado pela ideia de devolver ao Brasil uma grandeza que ele sente ter perdido. Algo como "Make Brazil Great Again". E qual era o símbolo máximo do Brasil grande? O futebol. O país do penta. Pois repare: desde que o PT chegou ao poder, o Brasil nunca mais ganhou uma Copa. São mais de duas décadas em que o símbolo da nossa excelência definhou junto com tantas outras coisas. Correlação não é causa, e os dados acima recomendam que ninguém na direita se anime achando que frustração de arquibancada vira voto sempre. Os números não mostram isso necessariamente. Mas talvez a pergunta certa não seja se a Copa muda a eleição, e sim o que significa um país que se acostumou a perder em tudo, até naquilo que era a sua maior certeza. Se eu fosse o marqueteiro do @FlavioBolsonaro, este seria o meu foco. #Política #Futebol #Eleições









