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#clareza

“Eu vou esclarecer quantas vezes forem necessárias.” É uma daquelas frases curtas que parecem simples, mas carregam muito significado. Soa como “não importa quantas vezes perguntem, eu continuarei respondendo.” É uma frase muito forte. #clareza #comunicação #significado

Estou indo deitar agora, às 4h da manhã, ainda sem sono depois de coletar majs de 100gb de dados. O Renan falou que derrubamos a Dilma há exatos dez anos e isso me fez pensar onde eu estava naquele momento. Eu lembro exatamente. Há dez anos, eu vivia o maior e mais importante impasse da minha vida. Tinha saído do sertão e, recém-completados 17 anos, morava longe de casa, numa cidade que me era muito estranha. Catava moedas dentro da mochila para comprar um miojo enquanto tentava realizar o grande sonho brasileiro: conseguir um diploma, de preferência numa Federal. Eu estava em uma. E começava a descobrir que talvez aquele sonho não fosse meu. Minha mãe diz que eu era inconformado desde criança. Aos dez anos, vendia papelão e latas para comprar revistas da Recreio e brinquedos que desmontava para descobrir como funcionavam. A curiosidade sempre veio antes de qualquer outra coisa. O dinheiro era um meio. O diploma também. Nunca foram o objetivo. Eu havia romantizado a universidade. Achava que seria o lugar onde minha curiosidade seria estimulada e minha criatividade pudesse florescer. BULLSHIT. Na prática, era apenas uma continuação da escola. Uma esteira. Eu queria largar, mas aquilo pesava pelos meus pais. Minha mãe não terminou o ensino fundamental e meu pai tem apenas o ensino médio. Eu seria o primeiro formado da família. Para eles, eu estar numa Federal e ser engenheiro era uma conquista coletiva. Mas eu sabia que continuar significava escolher o status em vez da minha própria vida e fechar possibilidades que poderiam me levar para outros caminhos. Eu não queria conviver com o arrependimento de não ter tentado. Então larguei. Passei meses estudando muito mais do que havia estudado até então e fui atrás daquilo que realmente despertava minha curiosidade. Por sorte, encontrei uma área em que eu era bom, lucrativa e na qual o diploma era opcional. Foram cinco anos me fodendo, sem ter vida alguma. Aos poucos, porém, as coisas mudaram. Conquistei coisas que jamais imaginei, mesmo se tivesse seguido a engenharia. Hoje estou exausto. Fisicamente e mentalmente. Minha esposa também. Ela teve uma vida de merda como eu e sabe o que significa trabalhar duro para conquistar qualquer coisa. Talvez por isso eu tenha tanta clareza sobre o que não quero. Não quero repetir a vida dos meus pais, que trabalharam a vida inteira e quase nunca puderam parar. Eu não quero que meu filho precise escolher entre sobreviver e viver. Talvez eu e minha esposa não consigamos construir tudo o que gostaríamos. Mas quero que meu filho tenha essa possibilidade. E é por isso que, dez anos depois de abandonar um caminho que todos diziam ser o certo, estou diante de outra decisão. Só que agora ela é muito maior do que a minha própria vida. Vou me dedicar a um projeto de país melhor. Não 200%. Porque, pela primeira vez, o objetivo não é construir apenas a minha vida. É tentar construir um lugar onde pessoas como meus pais tenham mais oportunidades e onde meu filho não precise lutar contra as mesmas limitações que enfrentamos. É por isso que tanta gente está se movimentando agora. Gente que conheci no caminho e que decidiu colocar tempo, dinheiro, conhecimento e reputação nisso. O Renan é uma dessas pessoas. Eu poderia simplesmente ignorar tudo isso. Poderia olhar para a vida que construí, aceitar que já conquistei muito mais do que um garoto de 17 anos contando moedas para comprar um miojo poderia imaginar e tentar ficar satisfeito com ela. Mas eu simplesmente não consigo. E talvez a gente fracasse. Se fracassar este ano, foda-se. Eu já aprendi, há dez anos, que existe coisa pior do que fracassar. É que, apesar de existir uma possibilidade remota de sucesso, ainda vale a pena tentar, mesmo quando todos e tudo conspirem contra. Se no final disso tudo eu puder olhar para trás e dizer que fiz tudo o que estava ao meu alcance, que me diverti no processo e que conheci pessoas extraordinárias pelo caminho, já terá valido a pena. #reflexão #mudança #sonhos

“Nós estamos prontos!” A frase é do executivo da SDC Sports, Jesse Fioranelli, e marcou a reunião extraordinária do Conselho Deliberativo (CD), na noite desta segunda-feira, na Vila Belmiro. O encontro serviu para que os representantes da empresa se apresentassem aos conselheiros e expusessem as razões pelas quais o grupo se interessou pela SAF do Santos Futebol Clube. Nesse encontro não estava prevista a exposição da proposta. Fioranelli esteve acompanhado à mesa pelo co-fundador da SDC, Diego Garcia, e pelo sócio-diretor Michael Lipman. Além deles, estiveram presentes na reunião os consultores David Kirsch e Peter Cohen. Os representantes deixaram claro que a empresa está pronta para concluir o investimento e afirmaram que a situação eleitoral do Clube não interfere e não há nenhuma relevância para as decisões futuras da SDC Sports. O processo para a escolha da SDC Sports foi conduzido com a XP Investimentos e, após avançar com 62 investidores e diversas reuniões ao longo do processo, foi concluído que a SDC Sports foi a que melhor apresentou e reuniu condições de colaborar com o futuro do Santos FC. O presidente Marcelo Teixeira falou sobre a importância da reunião: “Hoje tivemos um encontro de apresentação do grupo aos conselheiros e conselheiras, conforme estava na pauta. Foi fundamental para conhecer o perfil, a forma como são os investimentos, da maneira como também trabalharam no futebol e o perfil dos investidores. A diretoria executiva sempre teve um cuidado no assunto da SAF, mas, como nós concluímos hoje toda a documentação, cabe ao Conselho Deliberativo entender esse procedimento, votar as devidas mudanças estatutárias para que, se for do desejo do conselho e do quadro associativo, ocorra a mudança para SAF ou não”. Por 11 meses, a empresa estudou toda a estrutura e atual situação do Santos FC, além de possuir experiência em juntar capital e reunir investimentos. As famílias investidoras no grupo concederam total confiança aos executivos. Eles também afirmaram que o Santos FC foi escolhido por ser uma marca icônica, reconhecida mundialmente. “O Clube é um formador de talentos mundiais, que possui uma torcida apaixonada e engajada. Sabemos da necessidade de fortalecer o Santos FC, para voltar a ter com grandeza tudo aquilo que nos fez estar aqui hoje”, disse Jesse Fioranelli. Jesse também afirmou a importância da disciplina na gestão de capital. E que o time formado por eles possui grande excelência e é focado em melhorias estruturais e aprimoração de formação de atletas. Os executivos salientaram também que a soberania do Clube será mantida. E que estão totalmente dispostos a aprender com os conselheiros, sócios e torcedores e entender cada vez mais a grandeza do Santos FC, respeitando os processos de trabalho para liderar as mudanças com clareza. “A reconstrução exige uma visão de longo prazo. Enxergamos essa jornada em três etapas: convicção no projeto, transição para padrões de alta performance e fortalecimento do Selo Santista, criando as bases para uma evolução sustentável no longo prazo. Tendo esse plano a longo prazo, o Santos FC voltará com extrema grandeza para a disputa de todos os campeonatos que disputar”, concluiu Jesse. Leia a nota completa no site oficial do Santos FC. #SantosFC #SDCSports #FutebolBrasileiro

The Portuguese political crisis is a complex matryoshka consisting of crises of authority, responsibility, and representation, reflecting a system that lacks clarity in the distributions of power and responsibility. (translated)

Crise? Qual crise?

Posso falar? Acho que o Léo Ortiz vai continuar no futebol quando se aposentar. Poucos jogadores do futebol brasileiro têm a lucidez e a clareza que ele tem para falar sobre o jogo. https://t.co/cfhItKwwet #futebol #LéoOrtiz #esporte

🚨ATENÇÃO | Flávio mostra que a relação com Vorcaro foi estritamente privada e ligada ao patrocínio do filme, assim como outros investimentos do banqueiro em grandes veículos de comunicação. 📌 “É uma relação privada, como a de um banqueiro que investiu em programa da Globo.” 📌 “Não tem nada de errado nesse tipo de patrocínio.” 📌 “A origem do dinheiro é a mesma de outros investimentos dele.” 👏 Flávio trata o eleitor com respeito e explica tudo com clareza. #RelaçõesPrivadas #Patrocínio #Transparência

In the article, Bruno Cardoso Reis criticizes the lack of strategy from the US under the Trump administration regarding the conflict with Iran, arguing that the slowness in resolving the situation is harming the global economy and that the contradictory rhetoric only demonstrates a lack of clarity on how to address the problem. (translated)

"Os EUA não têm realmente grande ideia do que fazer"

Para mim existe sempre algo de perturbador na condescendência com que muitos falam do MBL como se o grupo fosse um bando de moleques retardados que não sabem de muita coisa. Veja, o MBL se firmou por onze anos como basicamente o único movimento político da era digital a alcançar relevância no Brasil. Ele conseguiu, ao mesmo tempo, manter-se como oposição crítica e aguerrida a dois governos, fundar um partido político, manter um orçamento empresarial enxuto com inúmeras atividades de alta complexidade sendo executadas simultaneamente, e agora estreia em uma campanha presidencial representando um nicho eleitoral fiel que é, no mínimo, igual ao de dois governadores de estado. Aí a gente vê a condescendência das pessoas que falam e eu pergunto: quem são vocês? Por que se acham habilitados a proferir um julgamento de cima pra baixo desse jeito? Exatamente, o que vocês conquistaram por si mesmos? O fato de que o MBL surge na era da política digital e fala para milhões de jovens, muitos dos quais com problemas de socialização (que são problemas da juventude em todo o globo), dá um tipo de inflexão estética que muita gente não gosta. Compreendo. Mesmo assim, essa dimensão é um recorte dentro do imagético no MBL, e é também algo profundamente representativo do estado atual da juventude brasileira. O que me perturba é que, nessa condescendência, existe não só uma falta de apreciação crítica sobre os méritos do objeto de desprezo como há outra coisa muitas vezes: uma falta de clareza sobre quem se é. #MBL #Política #Juventude

Domingo de pausa, reflexão e bastidores por aqui. 🌿 A semana que se avizinha traz novos projetos e desafios na área da inovação e da gestão, mas antes de darmos o salto, é preciso parar. Num ecossistema digital que vive a correr, sinto que o maior exercício que podemos fazer é o da intencionalidade: desacelerar para conseguir ver o caminho com mais clareza. Para mim, o equilíbrio entre a estratégia empresarial e o bem-estar pessoal não é um luxo, é a base de tudo o que fazemos. Como tem sido o teu domingo? Também aproveitas para recarregar energias na natureza ou preferes outra forma de desligar? Partilha nos comentários. 👇

🚨 André Sica, advogado de Lamacchia, revelou ajustes solicitados por fiscalizadores na proposta pela SAF do Vasco. Os pedidos foram: • Redução do break-up fee, multa prevista ao Vasco caso Lamacchia não vença o processo competitivo; • Complemento das garantias caso haja alguma falha na comprovação da capacidade econômico-financeira para cumprir as obrigações da Recuperação Judicial; • Maior clareza no contrato sobre o fluxo de pagamento das obrigações da RJ, incluindo os custos com os assessores judiciais. Todos os ajustes solicitados já foram realizados. 📰 @geglobo #Vasco #Futebol #RecuperaçãoJudicial

"O Negócio do Século de Vieira: Como se Livrou de 160 Milhões em Dívidas" O antigo presidente do Benfica ficou livre da dívida. O banco ficou com as acções — e a fugir delas."" Uma história antes da história A avó de uma amiga minha ficou viúva há uns anos e, com ela, herdou uma dor de cabeça: o marido tinha deixado dívidas de que ninguém na família sabia bem a dimensão. Antes de assinar seja o que for, a minha amiga levou-a ao advogado. E o advogado explicou-lhe uma coisa que a lei portuguesa prevê há mais de século e meio: uma herança pode ser aceite de duas maneiras. Pode aceitar-se "pura e simplesmente" — nesse caso, fica-se com tudo, o bom e o mau, e se as dívidas forem maiores do que os bens, paga-se a diferença do próprio bolso. Ou pode aceitar-se "a benefício de inventário" — fica-se com o que a herança tiver de bom, mas nunca se responde por mais do que aquilo que ela vale. Se a dívida for maior do que a casa e as poupanças do falecido, essa diferença simplesmente desaparece; não sai do bolso do herdeiro. A avó da minha amiga escolheu esta segunda opção, e dormiu descansada. Guardo esta história porque é, sem exagero nenhum, a chave para perceber o que aconteceu este mês com o Novobanco e as empresas de Luís Filipe Vieira. Só que, em vez de uma família a lidar com um advogado, temos um banco a lidar com uma norma internacional de contabilidade chamada IFRS 10. E o resultado, tecnicamente, é o mesmo: ficar com o que interessa, sem ficar com o resto. Vamos por partes, e por ordem cronológica, porque esta história começa muito antes da notícia desta semana. 2017 e antes — como nasceu a dívida Luís Filipe Vieira, na altura presidente do Sport Lisboa e Benfica, tinha um grupo de empresas imobiliárias — entre elas a Promovalor e a Inland. Estas empresas foram, ao longo de anos, financiadas pelo Banco Espírito Santo (BES) com centenas de milhões de euros. Em 2017, a dívida total deste grupo económico rondava os 400 milhões de euros. Essa dívida tinha duas partes bem diferentes, e é essencial perceber a diferença desde já: Primeira parte — 160 milhões de euros em VMOC. VMOC quer dizer "Valores Mobiliários Obrigatoriamente Conversíveis". Explicando sem jargão: é um instrumento financeiro em que se empresta dinheiro com uma condição escrita no contrato — se a dívida não for paga até determinado prazo, ela transforma-se automaticamente em acções da empresa devedora. Ou seja, deixa de ser dinheiro que a empresa deve, e passa a ser propriedade (capital) da empresa que o credor passa a deter. Destes 160 milhões, 90 milhões pertenciam à Promovalor e 70 milhões à Inland. Segunda parte — cerca de 240 milhões de euros em crédito bancário e hipotecário directo. Este era financiamento normal, sem a cláusula de conversão em acções — dinheiro emprestado para construção e promoção imobiliária, com hipotecas sobre os terrenos e edifícios como garantia. Em 2017, para tentar resolver a situação sem décadas de tribunais, o BES/Novobanco e Vieira chegaram a um acordo relativamente à segunda parcela (os 240 milhões de crédito directo): o património imobiliário real do grupo — terrenos e edifícios em Tavira, Loures, Vila Franca de Xira, um hotel Sheraton na Reserva do Paiva, no Brasil, entre outros — foi retirado das empresas Promovalor e Inland e colocado dentro de um fundo de investimento, gerido por uma entidade independente chamada C2 Capital Partners. Este fundo passou a vender os imóveis, ao ritmo do mercado, e a entregar o dinheiro das vendas ao banco, para ir abatendo a dívida. Em troca de terem cedido este património, o Novobanco ficou a deter cerca de 96% das "unidades de participação" (uma espécie de acções) deste fundo, e Vieira/Promovalor manteve os restantes 4%. O resultado prático desta operação de 2017 foi crucial: a partir daqui os imóveis reais e valiosos deixaram de pertencer à Promovalor e à Inland. Passaram a pertencer ao fundo. As duas empresas ficaram, na prática, sem património de peso — apenas com a dívida que ainda não tinha sido "resolvida" desta forma, ou seja, os 160 milhões de VMOC. 2017–2021 — o Acordo de Capital Contingente e o dinheiro público Quando o Novobanco foi criado a partir dos destroços do BES e vendido ao fundo americano Lone Star, foi assinado um mecanismo chamado Acordo de Capital Contingente (CCA). Este acordo obrigava o Estado português, através do Fundo de Resolução, a injectar capital no Novobanco sempre que este registasse perdas em créditos "podres" herdados do BES que fizessem descer os seus rácios de capital abaixo de um determinado limite. As perdas relacionadas com o grupo Vieira entraram exactamente neste mecanismo. À medida que os créditos e os VMOC deste grupo perdiam valor, o Novobanco ia registando "imparidades" — o termo técnico para dizer "estou a admitir que não vou receber este dinheiro, e vou apontar essa perda nas minhas contas". Essas imparidades geravam prejuízos, e esses prejuízos accionavam pedidos de capital ao Fundo de Resolução, que por sua vez ia buscar esse dinheiro a empréstimos do Estado — ou seja, em última instância, ao contribuinte. Neste período, o Novobanco chegou a provisionar a 100% os 160 milhões de euros dos VMOC — quer dizer, deu esse valor como perdido por completo, nas contas do banco, muito antes de a questão jurídica estar decidida. Uma fatia esmagadora desta perda de 160 milhões acabou por ser coberta, indirectamente, pelas injecções de capital público que o Acordo de Capital Contingente obrigava a fazer. É por isto que é justo dizer que os contribuintes portugueses já pagaram, de facto, uma parte substancial desta história — não porque tenham assinado um cheque com o nome de Vieira escrito, mas porque o mecanismo de resolução bancária funcionou precisamente como uma rede de protecção para as perdas do Novobanco, e estas perdas incluíam esta dívida. Este Acordo de Capital Contingente já terminou. Tinha um prazo e um tecto máximo de injecções, ambos esgotados. É um ponto importante a reter para o fim desta história. O litígio jurídico — o Novobanco tenta travar a conversão Apesar de os VMOC preverem, por contrato, a conversão automática em acções caso a dívida não fosse paga, o Novobanco não aceitou esta conversão de bom grado. Durante anos, o banco contestou-a em tribunal, tentando fazer cancelar essa conversão nos aumentos de capital da Promovalor e da Inland. Porquê resistir a ficar dono de duas empresas, em vez de simplesmente aceitar? Porque, como veremos, "ficar dono" de empresas cheias de dívidas por pagar é um problema, não um prémio. Fevereiro de 2026 — o Supremo Tribunal dá razão a Vieira Em Fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu esta disputa a favor de Luís Filipe Vieira. A decisão final obrigou o Novobanco a reconhecer aquilo que o contrato dos VMOC sempre tinha previsto: a conversão da dívida em acções. Na prática, o banco tornou-se, de um dia para o outro, o accionista maioritário das duas sociedades — com 66% do capital da Promovalor e 63,3% do capital da Inland. Para Vieira, este foi o desfecho que procurava: os 160 milhões de euros de dívida pessoal e do grupo, contraídos ainda no tempo do BES, ficaram legalmente extintos. Em troca, entregou ao banco a propriedade maioritária de duas empresas — que, como já vimos, tinham sido esvaziadas do seu património real em 2017. Do lado das contas do Novobanco, esta conversão não trouxe surpresas de maior a este nível específico: como a dívida de 160 milhões já estava provisionada a 100% havia anos, a decisão do Supremo não teve impacto adicional relativamente a este valor. O dinheiro, por assim dizer, já tinha sido dado como perdido antes mesmo de o tribunal decidir. O tamanho real do problema — de onde vêm os 278 milhões Aqui está o ponto que costuma confundir mais gente: se os 160 milhões de VMOC foram "limpos" através da conversão em acções, porque é que a notícia fala de um buraco de 278 milhões de euros nestas empresas? A resposta está na diferença entre a dívida total do grupo e a parcela que foi coberta pelos VMOC. Recorde-se: a dívida total em 2017 era de cerca de 400 milhões. Destes, apenas 160 milhões estavam ligados aos VMOC. Os restantes cerca de 240 milhões eram crédito bancário directo — a dívida que, em 2017, ficou associada ao fundo de imóveis, mas que continuou, tecnicamente, registada como passivo das próprias empresas Promovalor e Inland, à espera de ser paga pelas vendas dos imóveis. Ao longo de quase uma década de incumprimento, esta segunda parcela foi acumulando juros de mora e encargos — cerca de 38 milhões de euros adicionais. A conta soma-se assim: • Dívida global do grupo em 2017: aproximadamente 400 milhões de euros • Menos os 160 milhões de VMOC, extintos pela conversão em acções: fica um remanescente de cerca de 240 milhões • Mais os juros de mora e encargos acumulados ao longo dos anos: mais cerca de 38 milhões • Total do passivo actual das duas sociedades: 278 milhões de euros Este é, portanto, o "buraco" que hoje consta das contas da Promovalor e da Inland, e que nada tem a ver com os VMOC já resolvidos — é o que sobrou da outra fatia da dívida, a que nunca foi convertida em capital. E que garantias existem para pagar estes 278 milhões? Apenas o que resta do património no fundo gerido pela C2 Capital Partners. Quando os imóveis lá foram colocados em 2017, foram avaliados, na altura, num valor bruto de cerca de 244 milhões de euros — uma avaliação que se veio a revelar largamente inflacionada. À medida que os terrenos e edifícios foram sendo colocados à venda no mercado real (por exemplo, o Sheraton na Reserva do Paiva, no Brasil, vendido há cerca de um mês ao grupo hoteleiro português Vila Galé), os valores obtidos ficaram muito abaixo dessas avaliações antigas. Hoje, estima-se que o que resta por vender no fundo — que inclui ainda terrenos como os Páteos da Luz em Tavira, a Quinta dos Salgados em Santa Iria da Azóia, o Parque Oriente em Loures e a Quinta do Cochão em Vila Franca de Xira — valha entre 80 e 100 milhões de euros. Ou seja: mesmo que o banco consiga vender tudo o que resta no fundo pelo melhor preço possível, recuperará apenas entre 80 e 100 milhões para abater um passivo de 278 milhões. Mais de 170 milhões de euros deste "buraco" nunca serão pagos a ninguém — simplesmente deixarão de existir, por impossibilidade de cobrança, quando as empresas vazias forem, mais cedo ou mais tarde, extintas. Porque é que o banco não soma este buraco às suas próprias contas Chegamos aqui ao ponto mais técnico, mas também ao mais importante — e é aqui que a história da avó da minha amiga volta a fazer sentido. O Novobanco tem 66% e 63,3% do capital destas duas empresas. Bastaria isso, em contabilidade tradicional, para ser obrigado a somar às suas contas todos os activos e passivos delas — incluindo o "buraco" de 278 milhões. Mas a contabilidade moderna, através da norma internacional IFRS 10, deixou de olhar apenas para quem tem a maioria das acções. Passou a olhar para quem tem controlo efectivo — ou seja, quem manda de facto na empresa. A IFRS 10 exige três condições, todas em simultâneo, para que uma empresa seja obrigada a "consolidar" outra nas suas contas: 1. Ter poder — o direito e a capacidade real de dirigir as decisões operacionais e financeiras relevantes da empresa. 2. Ter exposição a resultados variáveis — ter direito aos lucros, ou estar exposto aos prejuízos, dessa empresa. 3. Ter capacidade de usar esse poder para influenciar esses resultados. O Novobanco fez uma escolha deliberada: apesar de ter a maioria do capital, recusou-se a nomear administradores próprios para os órgãos sociais da Promovalor e da Inland. Sem gente sua na gestão, o banco não assina cheques, não aprova orçamentos, não decide contratações nem vendas do dia a dia dessas empresas. A gestão formal continua, hoje, nas mãos do próprio Luís Filipe Vieira. Ao provar aos auditores externos e ao Banco Central Europeu que é, de facto, um accionista passivo e bloqueado — dono do papel, mas sem mão na engrenagem —, o Novobanco cumpre os critérios técnicos para não ser obrigado a consolidar estas duas sociedades. É exactamente a lógica do "benefício de inventário": aceitar a propriedade formal, sem aceitar a responsabilidade integral pelas dívidas associadas a essa propriedade. Como é que isto aparece, então, nas contas do banco? Se as empresas não entram "linha a linha" nas contas do Novobanco, como é que o banco as regista? A resposta divide-se em duas partes bem distintas, e vale a pena perceber esta divisão com clareza, porque é aqui que está o "coração" financeiro de toda a operação: As empresas (Promovalor e Inland) — ficam de fora do balanço. O banco regista as suas acções nestas duas empresas como um activo financeiro avaliado ao "justo valor" — e esse justo valor, dado o estado das empresas, é de 0 euros. O passivo de 278 milhões que está dentro delas não entra nas contas do banco. O fundo de investimento (gerido pela C2 Capital Partners) — entra no balanço. Como o Novobanco detém cerca de 96% das unidades de participação deste fundo — que é uma entidade separada, gerida de forma independente, sem as dívidas das empresas de Vieira — regista o valor desta participação ao seu justo valor de mercado: os já mencionados 80 a 100 milhões de euros em imóveis por vender. Explicando de outra forma: o banco leva para dentro de casa o que ainda vale dinheiro (a fatia dos imóveis no fundo), e deixa cá fora o que só tem dívidas (as próprias empresas). É esta divisão, tecnicamente permitida pelas regras internacionais, que suscita a pergunta moral com que qualquer leigo fica ao ler esta notícia. Porque não reergue as empresas, e porque não as fecha já Uma pergunta óbvia surge aqui: se o Novobanco tem mais de 60% do capital destas empresas, porque não usa esse poder para as reerguer, ou, em alternativa, para simplesmente as liquidar de vez, já que valem zero? Reerguer não é opção. Fazê-lo exigiria ao banco injectar dezenas ou centenas de milhões de euros novos nestas sociedades para pagar credores e tentar pôr um negócio a funcionar — só que não há negócio nenhum para pôr a funcionar. A Promovalor e a Inland não produzem nada, não têm fábricas nem prestam serviços; eram apenas holdings imobiliárias, e o património imobiliário real já foi retirado delas em 2017. Não há nada para salvar. Além disso, o Banco Central Europeu proíbe, em termos gerais, que bancos comerciais funcionem como promotores imobiliários ou injectem capital novo em empresas insolventes de clientes, precisamente porque isso destruiria os seus próprios rácios de capital. Liquidar também não é simples. Para pedir a liquidação ou insolvência de uma empresa da qual se é accionista maioritário, é normalmente necessário assumir primeiro o seu controlo formal: convocar uma assembleia geral, destituir a gerência actual (neste caso, a de Vieira), nomear administradores próprios, e só depois avançar com o processo de insolvência. O problema é que, no preciso momento em que o Novobanco nomeasse os seus próprios administradores e assumisse a gestão, activaria exactamente o critério de "controlo" da norma IFRS 10 que até aqui evitou cuidadosamente. Nesse instante, o buraco de 278 milhões entraria directamente para o balanço do banco, contaminando os seus rácios financeiros — antes mesmo de um tribunal decretar a liquidação, processo que pode demorar anos na justiça portuguesa. Além disso, quem assume a gestão de uma empresa em situação de insolvência iminente pode ficar exposto a responsabilidades legais e fiscais sobre dívidas passadas, incluindo eventuais dívidas à Autoridade Tributária ou à Segurança Social — mais um motivo para o banco preferir manter-se à distância. Por fim, uma liquidação das empresas em si não traria dinheiro nenhum ao banco, porque elas já não têm bens — o dinheiro que ainda há para recuperar está todo dentro do fundo de imóveis, e esse processo de venda já está em curso, independentemente do destino formal das duas sociedades. O resultado é uma espécie de "coma induzido": o banco não reergue as empresas, porque seria deitar dinheiro bom em cima de dinheiro perdido; não as líquida directamente, para não arrastar o passivo para o seu próprio balanço; e tenta, isso sim, vender a sua posição acionista — mesmo que seja por um euro simbólico — a terceiros ou ao próprio Vieira, "empurrando" o problema jurídico para quem o quiser aceitar. Foi exactamente isso que o banco tentou fazer em Março de 2026, através do exercício de uma opção de venda das suas acções na Promovalor e na Inland — tentativa que falhou "por incumprimento da contraparte", suspeitando-se, sem que a notícia o confirme expressamente, que essa contraparte seja o próprio Vieira. No relatório e contas, o Novobanco garante que vai continuar a procurar formas de se desfazer desta posição. Porque é que alguém quereria comprar acções que valem zero? Aqui vale a pena parar num pormenor que costuma intrigar quem segue este caso pela primeira vez. Se o Novobanco avalia as suas acções da Promovalor e da Inland em zero euros, porque é que, em Março de 2026, havia aparentemente alguém do outro lado disposto a comprá-las — numa operação que só não avançou por, segundo a notícia, "incumprimento da contraparte"? Antes de continuar, uma ressalva importante: a notícia não identifica quem era essa contraparte. A suspeita, levantada por órgãos de comunicação social e não confirmada pelo banco, é que possa ter sido o próprio Luís Filipe Vieira. É uma hipótese plausível — ele é, afinal, quem continua a gerir estas empresas, e seria o comprador mais óbvio de uma posição que, no fundo, já controla na prática — mas continua a ser apenas isso: uma hipótese. O raciocínio que se segue explora este cenário por ser o mais instrutivo, não porque esteja estabelecido como facto. Dito isto, a pergunta mantém-se válida mesmo em abstracto: porque é que alguém compraria "nada"? A resposta está em perceber que "zero" é o valor de liquidação — o que sobraria para um accionista se a empresa fosse fechada hoje e todas as dívidas pagas primeiro. Não é o valor de uso. Imagine-se uma casa arruinada, com uma hipoteca maior do que aquilo que ela vale — o banco, sabendo que nunca vai recuperar todo o dinheiro através dela, muitas vezes nem se dá ao trabalho de a executar, porque dá mais despesa do que proveito. A casa "vale zero" no papel, mas continua a ser um tecto, uma morada, uma estrutura que alguém pode ocupar e usar, sem nunca ser obrigado a pagar a hipoteca por inteiro. É exactamente esta lógica que se aplica à Promovalor e à Inland. Quem quer que controle estas empresas — hoje Vieira, enquanto gestor de facto — decide os contratos que assinam, o uso que fazem da estrutura jurídica, o destino do que ainda resta. E nunca é obrigado, só por deter ou controlar as acções, a pagar do seu próprio bolso a dívida de 278 milhões que lá dentro dorme, porque essa dívida é da empresa, uma pessoa colectiva distinta, e não da pessoa que a gere ou possui. É este o activo real que se procura quando se procura comprar "nada": não património, mas controlo, protegido pela responsabilidade limitada. Portugal já viu este mecanismo em acção antes, embora noutro contexto. Em 2008, o Estado português nacionalizou o falido Banco Português de Negócios (BPN) por um valor simbólico de um euro. Não porque o banco valesse, literalmente, um euro, mas porque o seu valor de liquidação era negativo — tal como o das empresas de Vieira hoje —, e o preço simbólico serviu apenas para formalizar a transferência do controlo. A diferença crucial é que o Estado, ao nacionalizar, aceitou também as dívidas do BPN, por ter um interesse público a defender. Um comprador privado das acções da Promovalor ou da Inland não teria essa obrigação: herdaria o controlo, sem herdar a exigência de pagar as dívidas com património pessoal. O economista Adam Smith já tinha avisado, há mais de dois séculos, sobre este tipo de separação entre quem controla e quem responde: observou que quem gere dinheiro alheio raramente lhe dedica o mesmo cuidado vigilante que dedicaria ao seu próprio. A ideia aplica-se aqui de forma quase inversa, mas com a mesma raiz — se ninguém está exposto ao custo total das más decisões do passado (nem o Novobanco, que não quer gerir, nem quem quer que venha a controlar as empresas, que não paga pessoalmente a dívida), o incentivo para alguém resolver de vez o problema de fundo — os 278 milhões por cobrar — torna-se praticamente nulo. A "casa arruinada" fica na rua, meio abandonada, precisamente porque a ninguém compensa assumir o custo de a demolir. Quem pagou, e quem vai pagar, no final de contas Chegados aqui, faz sentido separar duas perguntas que costumam confundir-se: uma é técnica ("isto é legal?"), a outra é moral ("isto é justo?"). Do ponto de vista técnico e regulatório, a resposta é relativamente simples: sim, o Novobanco está a aplicar correctamente as regras internacionais de contabilidade, e o Banco Central Europeu prefere mesmo que assim seja — obrigar o banco a consolidar um passivo de 278 milhões de euros que não escolheu, e sobre o qual não tem controlo de gestão, fragilizaria desnecessariamente a sua posição de capital. A questão moral é mais incómoda, e tem duas camadas. A primeira camada é sobre quem já pagou. Os 160 milhões de euros de dívida ligados aos VMOC foram, na prática, absorvidos pelo sistema de resolução bancária português ao longo dos anos em que o Acordo de Capital Contingente esteve activo — o que quer dizer, em bom português, que uma fatia esmagadora deste valor acabou coberta por injecções de capital público no Novobanco, financiadas por empréstimos do Estado. Some-se a isto uma fatia adicional de perdas relacionadas com a insuficiência das garantias do crédito de 240 milhões — estima-se que o impacto total, directo e indirecto, do grupo económico de Vieira sobre as contas cobertas pelo mecanismo de resolução tenha rondado os 200 a 300 milhões de euros. Dizer que "os portugueses pagaram para limpar parte da dívida de Vieira" é, por isto, uma descrição materialmente correcta. A segunda camada é sobre a assimetria entre o cidadão comum e o grande devedor. Se uma família comum deixar de pagar a prestação da casa, o banco fica com a casa, a família perde o imóvel, e continua a dever a diferença — com o risco de penhora de salário e de bens futuros. No caso de um grande devedor do sistema, existem instrumentos como os VMOC, fundos de reestruturação e mecanismos de capital contingente que permitem "limpar" formalmente o passivo pessoal, isolar o património ainda valioso para o credor, e distribuir o prejuízo residual pelo sistema financeiro e, em última instância, pelo contribuinte. É um duplo padrão real, mesmo que nenhuma das partes envolvidas esteja, tecnicamente, a infringir a lei. E agora? O risco para o contribuinte, hoje, é zero Há, no entanto, uma boa notícia nesta história, que raramente é dita com a mesma clareza com que se conta o resto: relativamente aos 278 milhões de euros que ainda restam nestas duas empresas, o risco para o contribuinte português é, hoje, nulo. Há três razões concretas para isto. Primeira: o Acordo de Capital Contingente que ligava as perdas do Novobanco ao Fundo de Resolução já terminou, com o seu prazo e tecto máximo esgotados. O Novobanco é hoje um banco privado, rentável, maioritariamente detido pelo grupo financeiro francês BPCE. Qualquer perda futura relacionada com este processo terá de ser absorvida pelos accionistas privados do banco, não pelo Estado. Segunda: esta dívida específica de 278 milhões já está, segundo a própria notícia, provisionada a 100% pelo banco — ou seja, o Novobanco já deu este valor como perdido nas suas próprias contas, com impacto já assumido no passado. A recusa em consolidar as duas empresas em 2026 serve, precisamente, para impedir que esta dívida antiga "ressuscite" e volte a afectar o balanço actual da instituição — mas o impacto financeiro, no que toca ao banco, já foi contabilizado. Terceira: os 278 milhões continuam registados como passivo dentro da Promovalor e da Inland, e, como o Novobanco nunca deu qualquer garantia pessoal por estas dívidas nem assumiu a gestão das empresas, esse passivo está "fechado" dentro delas. Se as empresas entrarem, no futuro, em liquidação ou insolvência final, o processo simplesmente encerra sem que os credores consigam cobrar — porque não há património para o fazer. A dívida extingue-se por impossibilidade de cobrança, sem que o Estado ou o contribuinte sejam chamados a pagar mais um cêntimo. Para terminar Voltemos, para fechar, à avó da minha amiga. Quando ela aceitou aquela herança "a benefício de inventário", ninguém achou que estivesse a fazer batota — estava apenas a usar uma protecção legal que existe, precisamente, para que um cidadão comum não seja arrastado para dívidas que nunca escolheu contrair. O Novobanco fez, tecnicamente, a mesma escolha. A diferença é que o "falecido", neste caso, é um grupo de empresas cujo colapso teve origem em créditos concedidos com pouco critério ainda no tempo do BES, cujas perdas já foram, em larga medida, cobertas por dinheiro público ao longo de quase uma década, e cujo devedor original viu a sua responsabilidade pessoal extinta por um instrumento contratual que ele próprio assinou décadas antes de este desfecho estar decidido. A lei está a ser cumprida, ponto por ponto. Fica apenas a pergunta que a lei, por definição, não responde: se o pequeno herdeiro e o grande banco têm ambos o direito de dizer "não aceito mais do que aquilo que a herança vale", porque é que, olhando para trás, é sempre o mesmo lado da sociedade que acaba a pagar a diferença primeiro? #Novobanco, #Luís Filipe Vieira, #Promovalor, #Inland, #VMOC, #IFRS10, #Fundo de Resolução, #BES, #Lone Star, #banca portuguesa, #contabilidade, #imparidades, #dívida, #explicador

🌷:O pessoal daquele lado ali tá conseguindo ver a Freen? Estão conseguindo ver com clareza? 🌷: Estou tão feliz de ver vocês! KNOCK KNOCK ROOM NO. FREEN #RoomNumberFreen #srchafreen https://t.co/x2ToDpZdI3 #Freen #KnockKnock #Happy

A timidez da nota da Ajufe em favor dos magistrados do TRF4 suspensos injustamente é um sinal de que a outrora digna associação se transformou em um clube de submissos que não serve mais para nada. Coube a ANPR, que sequer teve associados punidos, se posicionar com clareza e firmeza. #Justiça #TRF4 #Direitos

Rafael Gloves Jul 29

Uma coisa ninguém muda: Em alguns anos, muitos enxergarão com clareza quem foi o ÚNICO em Brasília contra essa ditadura imposta. #Brasil #Ditadura #Política

Eu falei para mim mesma, desde o diagnóstico, que não faria do câncer um modo de vida. E continuo firme nessa decisão. Os relatos sobre o meu tratamento serão pontuais, porque sei que ajudam outras pessoas e muita gente me pede para compartilhar essa experiência. Mas ontem recebi um comentário muito pesado, de uma pessoa que se diz de esquerda, e pensei que talvez eu precise explicar algumas coisas com mais clareza. Gente, eu sei que o processo de cura de um câncer não termina quando acaba a quimioterapia. Sei que, na medicina, geralmente são cinco anos de acompanhamento para uma pessoa ser considerada curada. Em nenhum momento disse que estou curada ou que estarei quando terminar a quimioterapia. O que trato como o fim de um ciclo é a quimioterapia. E quem passa por ela sabe o quanto é pesada. No meu caso, é ainda mais intensa. Tenho um câncer de mama triplo negativo, um tipo agressivo. Graças a Deus, está localizado, não houve metástase e o nódulo já desapareceu ao exame clínico. Mas continua sendo agressivo e tenho consciência disso. Ainda aguardo o resultado da pesquisa genética. Dependendo do que ela mostrar, posso precisar de uma cirurgia mais complexa. Se não houver mutação, talvez faça uma cirurgia conservadora, retirando apenas um quadrante da mama. Tudo será decidido pelas minhas médicas. Sou uma mulher jovem e, infelizmente, o câncer de mama tem aumentado entre mulheres mais novas. Por isso recebo o tratamento mais moderno disponível. Sou tratada no AC Camargo, referência em oncologia, e minhas médicas escolheram um protocolo intenso para reduzir ao máximo o risco de metástase no futuro. Serão cinco meses de quimioterapia. Três meses de quimioterapia semanal associada à imunoterapia, depois dois meses da quimioterapia vermelha, mais forte, a cada 15 dias. Depois vem a cirurgia. Dependendo do resultado, ainda posso precisar de radioterapia ou mais tratamento. Eu sei disso. Conheço os riscos da minha doença. Sei que existe a possibilidade de metástase. Mas também sei que faço o tratamento indicado pela ciência para aumentar minhas chances de viver muitos e muitos anos. Foi por isso que me doeu tanto ler um comentário dizendo: “Você não está curada. Sua médica não falou que demora cinco anos? Você não sabe da Rita Lee, da Preta Gil, do meu filho? Você pode ter metástase.” Eu não conheço essa pessoa. Ela não conhece a minha história. E esse comentário não ajuda ninguém. Quem recebe um diagnóstico de câncer já sabe que existe risco. A gente sabe que pessoas morrem da doença. A gente sabe o que é metástase. Não precisa que alguém apareça para nos lembrar disso. Todo paciente oncológico sente medo. Medo de morrer, da metástase e das reações do tratamento. Hoje, o que mais me assusta são os efeitos da quimioterapia, porque são muito pesados. Mas eu fiz uma escolha. Eu escolhi viver. Eu escolhi acreditar que vou me curar. Eu escolhi seguir tudo o que minhas médicas orientam, confiar na ciência e manter minha fé. Isso não é alienação. Não é negar a realidade. É decidir que o medo não vai comandar a minha vida. Nunca façam esse tipo de comentário para alguém que está enfrentando um câncer. Contar que seu pai, sua mãe, seu filho ou outra pessoa morreu da doença não ajuda quem está em tratamento. Nós já sabemos que isso acontece. Precisamos de apoio, esperança e respeito. O câncer, infelizmente, faz parte da realidade de milhões de pessoas e estará cada vez mais presente na vida das famílias. Mas ninguém consegue viver pensando todos os dias que vai morrer. Isso não é viver. Eu sei o diagnóstico que tenho. Sei que ele é agressivo. Sei dos riscos e do tratamento que ainda tenho pela frente. Mas também sei que sou acompanhada por uma equipe extraordinária, em um dos melhores hospitais para tratar câncer, recebendo o que há de mais avançado na medicina. Por isso, escolho acreditar nas minhas chances. Eu escolho viver. É assim que vou atravessar esse tratamento: com os pés na realidade e confiança! #Câncer #Oncologia #Esperança

GAVIÕES EXIGE TRANSPARÊNCIA DO PRESIDENTE DO CORINTHIANS A diretoria do Gaviões da Fiel Torcida esteve no Parque São Jorge nesta quarta-feira (22) e cobrou, pessoalmente, explicações do presidente do Corinthians, Osmar Stabile. A diretoria não mediu palavras ao exigir do presidente do Sport Club Corinthians Paulista transparência imediata e efetiva perante a Fiel Torcida. SAF DE DONO O presidente do clube negou veementemente qualquer reunião ou solicitação de empresários e/ou associados para tratar do tema da SAF de dono. O Gaviões voltou a exigir clareza absoluta sobre o tema da Safiel e sobre a possível assinatura de uma carta de intenções não vinculante. É de conhecimento de todos que esse documento não obriga o clube a vender o futebol nem define um acordo final. Ele serve apenas para abrir diálogo, permitir análises técnicas de mercado e viabilizar estudos de captação. Isso não justifica qualquer omissão. O Gaviões exige que o presidente promova, sem mais demora, um encontro entre os idealizadores do projeto, a diretoria do clube, o Conselho Deliberativo e o Conselho de Orientação (CORI), para que o assunto seja analisado, debatido de forma transparente ou, de uma vez por todas, descartado. O Gaviões da Fiel não aceitará que a atual diretoria do Corinthians continue tratando temas de tamanha relevância de forma obscura, distante e desrespeitosa para com sua torcida. O clube pertence ao povo, e nenhuma decisão sobre o futuro do Corinthians será validada às escondidas. TRANSFER BAN Sobre o transfer ban, o presidente afirmou que estudará meios para viabilizar os acertos. O Gaviões cobrará prazos e resultados dessas tratativas, pois promessas de pagamento não resolvem o problema. O Gaviões está de olho em cada passo desta gestão e não se calará diante de omissões. A fiscalização é diária, e a cobrança por transparência não vai parar até que haja respostas concretas. Pelo Corinthians, com muito amor, até o fim! #Corinthians #Gaviões #Transparência

Gil Diniz Jul 21

FOI PRA CIMA! Em discurso, @andredopradosp assumiu o compromisso firme de votar a favor do impeachment de ministros do STF que extrapolam suas funções, mostrando a coragem e a clareza de posicionamento que o eleitor paulista exige para o Senado. Essa atitude direta e sem rodeios prova que ele está pronto para exercer o papel fundamental de contrapeso constitucional, enfrentando os abusos de poder e atuando na defesa do equilíbrio entre as instituições. Pré-candidato a senador em São Paulo, ocupando a vaga que seria de @BolsonaroSP (que vem como suplente), André demonstrou compromisso com o povo brasileiro. E nosso estado precisa justamente de representantes que não se acovardem e tenham a firmeza necessária para resgatar a segurança jurídica e a ordem no país. #Impeachment #Justica #Senado

Observador Jul 16

O artigo discute a opinião de Miguel Baumgartner sobre a atual situação no Médio Oriente, destacando que a abordagem militar dos EUA contra o Irão, iniciada recentemente, não é suficiente para resolver o conflito, e que é necessário ter clareza sobre os objetivos dessa intervenção para garantir a segurança na região. #ConflitoNoMédioOriente #Irão #RelaçõesInternacionais

"Conflito no Médio Oriente não se resolve só com bombas"

Montenegro, os Exames Nacionais e os Bodes Expiatórios do Governo Em que um primeiro-ministro descobre, meses depois de todos os outros, que nem toda a gente concordava com o projecto que ele próprio lançou Há uns anos, quando ainda vivia a fase de organizar mudanças de casa com a ajuda de primos e cunhados, aprendi uma lição que nenhum manual de gestão ensina com a mesma clareza que um dia de caixotes e escadas: não se distribui trabalho a quem discorda do plano sem que isso volte, mais cedo ou mais tarde, sob a forma de uma caixa mal fechada ou de um móvel arranhado. Não é malícia. É apenas o que acontece quando se pede a alguém que execute uma ideia em que não acredita — a coisa acaba sempre por se notar nas juntas. Foi mais ou menos essa a cena que Luís Montenegro nos ofereceu esta semana, em Setúbal, nas jornadas do PSD/CDS. A poucas horas do fim das correcções dos exames nacionais, com professores a trabalhar contra-relógio e famílias em suspenso há semanas, o primeiro-ministro decidiu que era a altura certa para apontar o dedo: "aqui e ali tem havido alguma resistência" à digitalização das provas, disse, sublinhando que os professores "não têm todos a mesma opinião sobre este processo" e que isso "perturba o processo em si". Fê-lo, garantiu, "não para sacudir responsabilidades, nem para acusar ninguém" — a frase mais desmentida pela própria frase que se segue de que há memória recente. A reacção não se fez esperar. Filinto Lima, da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos de Escolas Públicas, chamou às declarações o que elas são: imprudentes, infelizes, e inúteis para resolver o que quer que fosse — "inflamou os ânimos", disse, numa altura em que os classificadores fazem "tudo por tudo" para que as pautas saiam a tempo. E aqui está o busílis: o que falhou, segundo quem esteve no terreno, não foi a boa vontade dos professores, foi a digitalização de milhões de páginas e uma plataforma que "não foi amiga" de quem tinha de a usar todos os dias. Ora, Montenegro não inventou este género de argumento — apenas herdou-o e agravou-o. Desde Junho que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, vinha ensaiando a mesma partitura, sempre com um culpado novo à mão. Primeiro foram as escolas, acusadas de convocar para a correcção professores já falecidos, ou de não entregarem todos os exames às forças de segurança para transporte até à Casa da Moeda. Depois vieram os próprios professores, criticados por agrafarem a prova em cima do código QR, complicando a leitura digital das folhas. Mais tarde, já com o calendário atrasado, a bola passou para os pais, "imprudentes" por terem marcado férias justamente nesta época. Só esta semana, e pela primeira vez, o ministro reconheceu publicamente o trabalho dos classificadores e pediu desculpa pelos erros sucessivos. Um mês, um bode expiatório — e a acusação de Montenegro não é senão o mais recente episódio de uma série que já vai longa. É como culpar sucessivamente o condutor, depois o sinal de trânsito, depois o passageiro, pelo mesmo engarrafamento — quando a estrada, desde o início, só tinha uma faixa para o volume de carros que ali passou a circular. Peter Drucker dizia que "a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço" — e não haverá frase mais aplicável a este episódio. Podia o Governo ter a melhor estratégia de digitalização da Europa; se não levou consigo, desde o primeiro dia, quem teria de a operar — nem verificou se a plataforma aguentava o volume real de páginas, nem se os professores tinham sido devidamente preparados — a estratégia fica reduzida a um powerpoint bonito e a uma sucessão de culpados trocados a cada mês que passa. E aqui chegamos ao verdadeiro problema, que não é de comunicação nem de tacto — é de sequência. Um gestor competente não descobre a resistência da sua equipa quando já não há tempo para a resolver. Descobre-a no dia zero, quando ainda pode ajustar o plano, reforçar a formação, ou simplesmente ouvir porque é que uma parte dos seus colaboradores não está convencida. Descobrir a discórdia às portas do prazo final, e responder-lhe com uma acusação pública — depois de meses a repetir o mesmo gesto com escolas, professores e pais, sucessivamente — não é liderança. É o gestor que chega à missa depois de esta ter terminado, e ainda assim se queixa de que os fiéis já não estão sentados. Se há uma coisa que este episódio nos ensina, caro leitor, é que a resistência de quem executa raramente é o problema — é o sintoma. E os sintomas, ao contrário do que por vezes convém a quem está no poder, não se corrigem com um discurso, nem com um culpado novo a cada semana. Corrigem-se olhando para a doença que os produziu, mesmo que essa doença tenha sido, desde o início, uma decisão mal preparada lá em cima. #Política Portuguesa, #Educação, #Exames Nacionais, #Luís Montenegro, #Gestão Pública, #Governo, #reforma educativa, #Exames, #correcção de provas

Portugal, Cobaia da Europa “Onde a Comissão Europeia manda, o PRR paga e o professor corrige — sem saber ao certo o quê” Há professores que descrevem, nas redes sociais e em conversas de sala de professores, uma sensação nova e desconfortável: a de serem avaliados enquanto avaliam. Plataformas de correcção digital que registam o tempo gasto em cada resposta, sistemas que sinalizam quem corrige "devagar", classificadores que nunca souberam, até agora, que o seu próprio ritmo de trabalho estava a ser medido. Ninguém lhes explicou, com clareza, quem vê esses números, para onde vão, nem que decisão deles depende. O caso não é anedota isolada. É o retrato mais fiel do que se tornou a avaliação nacional depois da entrada em cena do PRR: 300 mil exames digitalizados numa plataforma incapaz de fazer coincidir a primeira página com a segunda, que já convocou matemáticos para classificar provas de línguas, e que apaga respostas para segundos depois, fazer surgir outras no lugar. A razão para tantos erros está no próprio desenho do sistema. Já não é um professor a pegar no exame de um aluno, do princípio ao fim, a lê-lo, a perceber o seu raciocínio e a atribuir-lhe uma nota que consegue explicar. O exame foi despedaçado em itens — cada pergunta separada das outras — e distribuído por vários professores diferentes, cada um a "despachar" apenas um pedaço, de muitos alunos ao mesmo tempo, como numa linha de montagem em que ninguém vê o carro completo, só aperta o seu parafuso. Por isso já não se corrige: classifica-se. E há uma consequência que devia incomodar-nos mais do que incomoda: como o trabalho passa todo dentro da plataforma, o sistema regista, item a item, quanto tempo cada professor demora a decidir — um cronómetro sobre o trabalho docente que nunca existiu na correcção em papel, e que serve tanto para pressionar quem "vai devagar" como, mais cedo ou mais tarde, para ensinar uma máquina a fazer o mesmo. Um aluno pode aceitar uma nota sem que ninguém — nem sequer um único professor — tenha visto o seu exame por inteiro e lhe consiga explicar o erro? Chama-se a isto modernização. Devia chamar-se-lhe, com rigor, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo docente, feita sem consentimento informado de quem nele trabalha. Vamos aos números reais, porque aqui a realidade já é suficientemente grave sem ser preciso exagerar nada. Foram entregues 7,1 milhões de euros a empresas privadas do sector tecnológico para digitalizar cerca de 300 mil provas e distribuí-las pelos correctores. Desde 2023, o antigo Instituto de Avaliação Educativa assinou 16 contratos ligados à digitalização das provas, num total de cerca de 7,1 milhões de euros, a que acresce ainda o IVA. Ao longo de uma década, esse instituto — entretanto renomeado — distribuiu 11,35 milhões de euros por 126 contratos com diferentes empresas tecnológicas, um valor bem mais amplo, que cobre equipamento, segurança informática e consultoria em geral, não só a digitalização dos exames. O maior contrato de todos nem sequer é para o sistema que está a falhar agora: em Julho de 2025, a Axians, do grupo francês Vinci, assinou com o instituto um contrato de cerca de 1,49 milhões de euros, financiado pelo PRR, para desenvolver uma nova plataforma que só deverá entrar em funcionamento em 2027. Convém dizer isto sem rodeios: o dinheiro do PRR não é uma prenda — é um empréstimo, com juros, que os portugueses pagarão durante anos, como sabem bem as populações de Boticas ou do Fundão, habituadas a outras promessas de "transição" feitas em nome de fundos europeus. E é aqui que a história ganha contornos quase cómicos, se não fosse trágica. A plataforma que hoje corrige — ou tenta corrigir — os exames não é a tal plataforma nova e cara. É gerida pela Blat – Creative Powerhouse, uma microempresa lisboeta com apenas catorze funcionários e uma facturação anual abaixo dos 580 mil euros, que regista só dois contratos públicos com o instituto, num valor total de cerca de 49 mil euros. O próprio ministro da Educação disse que esta colaboração vinha desde 2018 — só que a Blat, tal como existe hoje, nem sequer existia nessa altura: nasceu em 2020, como agência de comunicação chamada Antebellum, e só passou a chamar-se Blat em 2022. A empresa que assinou o contrato de 2018 tinha outro nome e outro número de identificação fiscal — uma empresa diferente. Ou seja: nem o próprio Ministério consegue explicar, com clareza, há quantos anos e com quem trabalha, quando falamos da peça mais crítica de todo o sistema. Vale a pena explicar, em palavras simples, uma confusão que ajuda a perceber o caos: há, na verdade, dois sistemas diferentes envolvidos. Um é a plataforma que recebe os ficheiros digitalizados e os distribui pelos professores — desenvolvida internamente, foi aqui que apareceram os erros mais visíveis, como folhas de continuação cortadas e itens trocados entre alunos. O outro é a plataforma onde os professores efectivamente classificam as respostas, criada internamente em 2016 e depois entregue à Blat para ser desenvolvida em sucessivas versões. O problema é que esse sistema nasceu pensado para um universo bem mais pequeno e totalmente digital — não para pegar em 300 mil exames feitos em papel, digitalizá-los à pressa e distribuí-los da noite para o dia. É como pedir a uma bicicleta de cidade que aguente uma corrida de camiões: em algum momento, parte. Numa das plataformas foi ainda identificada uma falha de segurança que obrigou a suspendê-la temporariamente, com a consultora Deloitte chamada às pressas para ajudar a resolver o problema — o mesmo tipo de problema que, no ano anterior, já tinha aparecido num projecto-piloto com 20 mil provas de Filosofia, ignorado nessa altura pelo Ministério. É como pedir a alguém que aprenda a conduzir num Fórmula 1, em auto-estrada, à noite, sem faróis — e depois espantarmo-nos com o acidente. A pressa não é acidental: é política. E a pergunta que ninguém faz em voz alta é porque foi Portugal, e não a Alemanha ou a França, o país escolhido para essa auto-estrada. Não deixa de ser revelador que, segundo relatos vindos de dentro do próprio ensino privado de topo, seja precisamente entre os filhos das classes dirigentes que esta tecnologia tende a ser mantida a maior distância — colégios onde a manhã ainda começa com leitura e silêncio, e não com um ecrã. Fica a pergunta, mais do que a certeza: quem decide impor esta tecnologia aos filhos dos outros, hesitaria em impô-la aos seus? A resposta institucional está nos próprios documentos da Comissão Europeia, que descrevem Portugal como "ambiente ideal para testes de escala" — o mesmo epíteto que já nos coube com o Cartão do Cidadão, a e-factura, a e-saúde e os pilotos de voto electrónico. Somos, há muito, o aluno aplicado da turma europeia: aceitamos depressa, resistimos pouco, temos infra-estruturas montadas e sindicatos menos combativos do que os alemães ou os franceses. É a mesma lógica que, no século XVIII, levou Pombal a reformar o ensino português com uma pressa iluminista que atropelou tradições inteiras; a diferença é que Pombal queria formar cidadãos, e o PRR quer, sobretudo, treinar algoritmos. Convém dizer isto com clareza, porque a expressão "inteligência artificial" faz-nos baixar a guarda crítica, como se estivéssemos perante um destino inevitável. Não é. Esta tecnologia não é inteligente — é estatística aplicada a milhões de respostas humanas — nem é artificial: depende de trabalho humano massivo e mal pago, de quem digitaliza à mão, de quem classifica, de quem fornece, sem saber, os dados que a alimentam. Há, nesta cadeia, uma inversão que raramente se nomeia: os mesmos professores e alunos cujo trabalho serve de matéria-prima para treinar os sistemas são também aqueles a quem depois se pede que confiem nesses sistemas para os avaliar. Paga-se a mesma pessoa duas vezes menos — uma vez em salário, que não aumenta, outra em autonomia, que diminui. Estudos de neurobiologia, de psicologia e inquéritos da OCDE dizem todos a mesma coisa, por outras palavras: quanto mais deixamos a máquina pensar por nós, menos o nosso próprio cérebro trabalha — e a concentração, a memória e o raciocínio complexo, que a escola devia treinar, ficam mais fracos. Paulo Freire já dizia, décadas antes de haver escolas "digitais", que ensinar não é despejar matéria na cabeça de alguém, mas ajudar esse alguém a aprender a pensar sozinho. Uma escola obcecada em medir a velocidade de correcção faz exactamente o contrário. Gert Biesta, um pedagogo mais recente, acrescenta algo importante: educar é sempre arriscado, porque lida com pessoas — livres, imprevisíveis, diferentes umas das outras — e é esse risco, essa imprevisibilidade, que faz da educação, e não um treino mecânico. Uma escola que tenta eliminar esse risco com algoritmos não está a melhorar a educação: está a destruí-la. E fica um aviso simples: quando um aluno pensa menos, não perde só ele — perdemos todos, porque o conhecimento que a humanidade partilha só cresce quando cada nova geração pensa por si. Nem é como se o resto da Europa tivesse aceitado isto sem resistência. Não existe, é preciso dizê-lo com honestidade, uma decisão única e europeia a travar de vez a avaliação digital — mas há factos concretos, e verificáveis, de resistência jurídica e institucional. Na Alemanha, uma associação de defesa de direitos digitais processou universidades pelo uso de software de vigilância em exames online, e a Baviera chegou a proibir por lei o reconhecimento facial e a análise automática de comportamento na correcção de provas, por considerar essas técnicas desproporcionadamente intrusivas. Em França, a autoridade de protecção de dados exige, desde 2023, que as escolas ofereçam sempre uma alternativa presencial a quem não quiser ser vigiado digitalmente num exame. E no Parlamento Europeu chegou mesmo a ser pedida, formalmente, uma investigação à privacidade destas ferramentas de vigilância educativa. Não é uma recusa em bloco, mas é o oposto do silêncio que se vive em Portugal: é debate público, é litígio, é regulação a travar excessos antes de eles se instalarem. Em Portugal, esse debate mal chegou a existir. Nem a maioria dos partidos com assento parlamentar, nem a generalidade dos sindicatos de professores, questionaram publicamente o modelo em si — a divisão do exame em itens, a substituição da correcção pedagógica por uma simples classificação, a monitorização do tempo de trabalho docente. Discutiu-se a incompetência da execução, não a legitimidade do desenho. É uma diferença que parece técnica e é, na verdade, política: uma coisa é exigir que um sistema mau funcione melhor, outra é perguntar se aquele sistema devia sequer existir. Nas redes sociais, longe dos comunicados oficiais, foi de professores e não dos meios do costume que veio a onda de testemunhos sobre os erros dos exames — enquanto o ministério, por algum tempo, insistiu em desvalorizá-los. A pressão política acabou por obrigar a mais do que palavras: o sindicato de professores Fenprof pediu directamente a demissão do ministro da Educação, o Bloco de Esquerda propôs uma comissão parlamentar de inquérito para apurar quem desenvolve e gere a plataforma e com que dinheiro do PRR, e até um pedido de debate urgente do Chega chegou a ser recusado pelo presidente do Parlamento. Perante o caos, o ministro autorizou ainda meio milhão de euros extra para tentar estabilizar o sistema em pleno processo de correcção — dinheiro gasto às pressas para apagar um incêndio que, no fundo, resultou de anos de decisões apressadas. Para muitos desses professores, o problema não é apenas a pressa: é o próprio modelo — descritores simplificados, perguntas fechadas, uma avaliação pensada para ser lida por uma máquina antes de ser lida por um ser humano. Não escrevo isto para condenar a tecnologia em si, nem os professores que, sem alternativa, hoje classificam aquilo que a plataforma lhes atribui. Escrevo-o porque um país que aceita ser laboratório sem perguntar o preço do ensaio acaba sempre a pagar a factura duas vezes: uma em dinheiro do PRR, outra em confiança perdida na escola pública. Da próxima vez que o seu filho, ou o filho de um amigo, receber uma nota de exame que pareça estranha, vale a pena perguntar não só se a resposta estava certa — mas quem, ou o quê, a leu primeiro. #PRR, #educação, #digitalização, #inteligência artificial, #vigilância digital, #Portugal, #União Europeia, #professores, #exames nacionais, #Paulo Freire, #Gert Biesta